MÁQUINA DE ENSINAR (NÃO É “ENSINAR MÁQUINAS”)

(Este texto foi republicado aqui.)

Como grande parte da obra de Skinner, a ideia da máquina de ensinar foi, e ainda é, alvo de falsas objeções. A começar pelo nome, “máquina”, muita gente já faz cara feia. Mas não é isso que usamos o tempo todo? Computador, TV, geladeira, micro-ondas, carro, ar-condicionado, celular, máquina de lavar etc. Aliás, máquina de jogar – videogame – pode! Por que não uma máquina de ensinar? (Não confunda com “ensinar máquinas”). Uma máquina de ensinar é só uma máquina usada pra ajudar na educação. Só isso, não complique. Claro, na verdade não é tão simples assim. A máquina de ensinar proposta por Skinner é cuidadosamente planejada, com base no conhecimento científico sobre o comportamento, para ser mais eficiente possível em seu propósito: ensinar. Ensinar pode ser definido como o dispor de contingências de reforçamento sob as quais o comportamento muda.

máquina de ensinar

Alunos com máquinas de ensinar.

Em seu livro, Tecnologia do Ensino, publicado na década de 60, Skinner reuniu suas principais considerações sobre o assunto, e é de onde evoco citações destacadas no texto abaixo.

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ESTAMPAGEM (IMPRINTING)

A discussão sobre a determinação de nossos comportamentos tem se limitado à oposição inato x aprendido, e pouca atenção tem sido dada à estampagem. Denominamos estampagem (ou imprinting, em inglês) o fenômeno onde há liberação de padrões de comportamentos que se dá, de certa forma, por uma combinação de fatores filogenéticos com eventos ambientais. Em outras palavras, o comportamento é determinado por um componente inato – uma tendência – em respostas a eventos que ocorrem durante a história de vida do indivíduo. Alguns autores costumam apontar a estampagem como uma forma de aprendizagem. Entretanto, esse evento apresenta algumas características que o distinguem da ‘aprendizagem comum’. Ficou meio confuso… segue o texto que fica mais claro!

estampagem cachorro patinhos

Filhotes estampados com membros de outra espécie.

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EXPLORANDO JEAN PIAGET

Na psicologia, Jean Piaget foi um dos pensadores mais influentes do século XX. Nascido em Neuchâtel, Suiça, no ano de 1896, Piaget alcançou reconhecimento internacional com suas ideias sobre o desenvolvimento cognitivo humano, e pela aplicação de suas teorias na prática pedagógica contemporânea. Um dos seus maiores feitos foi ter colocado no campo da experiência científica as questões que concerne ao estudo do conhecimento, ou seja, em suas pesquisas ele investiga experimentalmente a gênese das estruturas cognitivas fundamentais e a elaboração das categorias de pensamento.

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A FALÁCIA DA NARRATIVA COGNITIVISTA

O Behaviorismo está morto! – bradam os cognitivistas. A hegemonia behaviorista na primeira metade do século XX marca uma época obscura na história da psicologia, a Idade das Trevas como satiriza Roddy, tempos de ignorância e enganos superados graças à sagacidade da ciência cognitiva a partir da década de 50. No início do século passado, John B. Watson foi o vilão dessa desventura: o malvado cientista que, com suas artimanhas, podia fazer qualquer bebê se transformar em qualquer coisa. Mas os behavioristas tinham seus dias contados. A velha teoria do estímulo e resposta da escola behaviorista revelou-se errada1, e quase de um dia pro outro, os psicólogos começaram a pensar em termos de cognição e não somente em comportamento2. Todo domínio behaviorista foi posto a baixo graças a nossos heróis cognitivistas. De certo, não esperavam que o mal ousaria se reerguer na figura de Burrhus Skinner, que assume as rédeas do behaviorismo. Confuso, Skinner difundia suas fantasias insanas: ele acreditava que estados mentais não eram nada além de uma ilusão3. Contudo, a maioria dos psicólogos já não mais levava o behaviorismo a sério4. Inserido no meio dessa agitação, Skinner não tem chance alguma, seus domínios pouco avançam. A psicologia cognitiva finalmente impera.

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O QUE É REDUCIONISMO?

Chamar o outro de reducionista virou quase um palavrão e é uma acusação frequente nos discursos e críticas no meio acadêmico. É usado muitas vezes sem critério, sem conhecimento de causa, e geralmente de forma pejorativa para atacar teorias adversárias. É o que ocorre frequentemente nos cursos de psicologia quando professores e alunos fazem afirmações, às vezes muito rasas, acusando outras abordagens. Como, por exemplo: “― A psicanálise reduz tudo a sexo!”; ou “― Os behavioristas querem reduzir toda complexidade humana a simples respostas a estímulos.” ou ainda “a neurociência reduz tudo a ligações físico-químicas.”

Uma resposta contra essas declarações mal fundamentadas, que apontam um ou outro como “reducionista”, depende de um conhecimento mais profundo sobre essas abordagens, o que não é a finalidade deste artigo. Mas voltaremos a tratar da neurociência como exemplo ao fim de nossa análise.

Mas, além desse uso popular como acusação, o que é reducionismo mesmo?

Reducionismo: o todo se explica pelas partes?

Reducionismo: o todo se explica pelas partes?

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