O QUE É REDUCIONISMO?

Chamar o outro de reducionista virou quase um palavrão e é uma acusação frequente nos discursos e críticas no meio acadêmico. É usado muitas vezes sem critério, sem conhecimento de causa, e geralmente de forma pejorativa para atacar teorias adversárias. É o que ocorre frequentemente nos cursos de psicologia quando professores e alunos fazem afirmações, às vezes muito rasas, acusando outras abordagens. Como, por exemplo: “― A psicanálise reduz tudo a sexo!”; ou “― Os behavioristas querem reduzir toda complexidade humana a simples respostas a estímulos.” ou ainda “a neurociência reduz tudo a ligações físico-químicas.”

Uma resposta contra essas declarações mal fundamentadas, que apontam um ou outro como “reducionista”, depende de um conhecimento mais profundo sobre essas abordagens, o que não é a finalidade deste artigo. Mas voltaremos a tratar da neurociência como exemplo ao fim de nossa análise.

Mas, além desse uso popular como acusação, o que é reducionismo mesmo?

Reducionismo: o todo se explica pelas partes?

Reducionismo: o todo se explica pelas partes?

Num exame mais detalhado, identificamos diferentes tipos de reducionismo dependendo do que se refere: reducionismo ontológico, reducionismo epistemológico, reducionismo semântico etc. Grosso modo, por reducionismo entendemos diferentes teorias que afirmam que objetos, fenômenos, teorias ou significados complexos podem ser sempre reduzidos, ou seja, expresso em unidades diferentes a fim de explicá-los, a suas partes constituintes mais simples. Mas, por ora, serve pra gente focar a diferença entre dois modos de se falar sobre reducionismo (além da forma usual já citada lá no começo). Podemos falar do reducionismo como: i) concepção filosófica e ii) programa de investigação científica.

Princípios matemáticos da filosofia natural, 1687, de Isaac Newton

Princípios matemáticos da filosofia natural, 1687, de Isaac Newton

O reducionismo como concepção filosófica se refere à tese fisicalista¹ que sustenta que toda realidade, em última análise, é determinada por fatos físicos, ou melhor, leis da física. Ou seja, a linguagem da Física² deverá ser a linguagem de toda a ciência, pois os fatos dos quais a ciência trata são de um mesmo tipo ou, pelo menos, podem ser decompostos em fatos de um mesmo tipo. Essa abordagem já era adotada a princípio, de forma rudimentar, pelos filósofos jônicos quando reduziam os fenômenos naturais a elementos básicos. Mas o fisicalismo propriamente dito só foi consolidado a partir de Galileu, Descartes e Newton. Nessa época, a física era a ciência que unificava todas as outras. Os fisicalistas sustentavam que o problema da explicação de um sistema estava resolvido assim que o sistema fosse reduzido aos seus menores componentes. Tão logo se completasse o inventário de tais componentes e se determinasse a função de cada um, afirmavam que seria uma tarefa fácil explicar também tudo o que fosse observado em níveis superiores de organização.

Essa concepção sustenta um programa de investigação científica. Reduzir a realidade estudada apenas a alguns poucos de seus aspectos revela que esta metodologia reducionista foi capaz historicamente de suscitar um avanço do conhecimento e que, portanto, ela tem grande valor epistemológico. Na realidade, grande parte de nossas descrições e investigações se dão de forma a isolar diferentes aspectos do objeto estudado ou descrito. Separar, isolar, classificar etc. é um recurso para o conhecimento humano.

O fisicalismo e a tarefa de empreender a análise em níveis cada vez mais inferiores foram relevantes durante bastante tempo. O anatomista não estudava o corpo como um todo, mas tentava entender seu funcionamento dissecando-o em seus componentes, órgãos, nervos músculos e ossos. O objetivo da microscopia era estudar componentes cada vez menores de tecidos e células. Grande parte da história da ciência é um relato dos triunfos dessa abordagem analítica.

niveis de organização

Níveis de organização biológica. Às vezes é preciso entender os níveis mais básicos para entender os mais complexos. E vice-versa.

Entretanto, a crença reconfortante numa ciência unificada em torno das leis da física se tornou cada vez mais difícil de sustentar com o advento da biologia moderna e o desenvolvimento das ciências humanas a partir do final século XIX. A ciência não é um todo unificado a partir da possibilidade de reduzir todos processos a um nível fundamental. Diferentes teorias e explicações muitas vezes não podem ser reduzidas uma à outra, no sentido de que não podem ser entendidas como redutíveis a um nível de explicação básico. Pelo contrário, as perspectivas reducionistas devem ser vistas como recursos complementares, como parte da explicação para se entender um processo complexo.

Conclusão. O reducionismo, como concepção filosófica fisicalista, que enseja a possibilidade de oferecer explicações para todos fenômenos complexos em termos de leis e elementos de níveis mais baixos descritos a partir de leis da Física, caiu por terra. Embora um ou outro ainda defenda propostas reducionistas radicais, o modelo fisicalista já não mais se sustenta. Por outro lado, o reducionismo como programa de investigação científica não tem como ser rejeitado. O reducionismo é elemento importante no desenvolvimento de estratégias valiosas para a geração de modelos inovadores e com capacidade explicativa.

Então, voltando a um dos exemplos no começo do texto, a neurociência tem ou não uma metodologia reducionista? Não e sim. Não, pois a neurociência não se apoia na tese fisicalista, pois os modelos biológicos não podem ser entendidos reduzindo-se o sistema em elementos cada vez menores que são explicados a partir de leis da Física. Pelo contrário, cada vez mais é abordada uma perspectiva mais ampla, tendo como objeto de estudo o sistema como um todo, ou um conjunto de redes neuronais, sempre em relação a outras partes do organismo. Além disso, para descrever seus fenômenos e estruturas, ao contrário de séculos atrás, procura-se atualmente entender o sistema nervoso numa perspectiva histórica, ou seja, evolutiva. Por outro lado, sim, o reducionismo é parte de sua metodologia, assim como é parte do programa de investigação de inúmeras disciplinas: são estratégias que nos permitem identificar componentes mais simples de sistemas complexos, os quais, posteriormente, precisam levar em consideração juntos de outros componentes se quisermos entender a complexidade de níveis superiores.

O erro está em confundir as duas formas de se entender o reducionismo, como tese fisicalista e como programa de investigação científica.

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¹Atualmente, o termo fisicalismo é amplamente utilizado na filosofia da mente, referindo-se a tese segundo a qual os processos ditos mentais são unicamente resultados de processos físicos.

²Não confundir Física enquanto ciência, com física enquanto realidade oposta à metafísica. Neste caso referimos à Ciência Física.

Bibliografia:
MARTÍNEZ, S. Reducionismo em biologia: uma tomografia da relação biologia-sociedade, in ABRANTES, P. (org.) Filosofia da Biologia. Porto Alegre: Artmed, 2011.
MAYR, E. Biologia: Ciência Única. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O Cérebro da Mosca
ocerebrodamosca.wordpress.com
https://ocerebrodamosca.wordpress.com/

11 pensamentos sobre “O QUE É REDUCIONISMO?

  1. Texto excelente! De fato, a neurociência pode ter uma visão mais abrangente do ser humano, como quando, por exemplo, se junta à psicanálise (neuropsicanálise). Contudo, ainda há, sem dúvida, um reducionismo em psiquiatria, medicina e em tantas áreas científicas. A resistência ainda é grande. Não podemos negar isso, porque ao negarmos, não fazemos nada para mudar esta realidade.

    • Reducionismo, como falado no texto, sempre haverá nestas áreas científicas, pois faz parte do programa de investigação dessas ciências. Acredito que tem uma confusão aqui entre Física como ciência com um conjunto de leis, e física(o) como realidade sensível. Quando apontei que a neurociência tem uma abordagem mais ampla, o que quis dizer é que para explicar os fenômenos e estruturas que ela se propõe a explicar não basta ela reduzir as partes em unidades cada vez menores, ela precisa levar em consideração outros fatores mais complexos (história evolutiva, ambiente, ‘função’ do todo). Ou seja, não quer dizer que estes fatores sejam de uma realidade metafísica. Não se pode confundir aqui a tese fisicalista do reducionismo com o fisicalismo em oposição a metafísica. A tese fisicalista tem a ver com a explicação dos fenômenos a partir das ‘leis’ da física. Descartes, por exemplo, nesse sentido, era reducionista ao tentar decompor os fenômenos sensíveis em suas partes menores para explicá-los. Não deixava, porém, de acreditar numa realidade além do sensível. Nesse sentido, a neurociência, atualmente, é fisicalista por não acreditar numa realidade além do sensível, mas não é fisicalista no sentido reducionista pois para explicar os fenômenos biológicos as leis da [ciência] Física não são suficientes.

      • É claro que o ambiente não é realidade metafísica, entretanto, se a psicologia considera que mente é diferente de cérebro, ou que esta possui características que transcendem a realidade física, material (agora sim, estou falando de física), então deve-se pressupor uma realidade além da matéria. Infelizmente, muitos psicólogos têm medo de afirmar isso. Com todos que tenho conversado, a esmagadora maioria considera que se a mente equivaler ao cérebro, então a própria psicologia não faria sentido. Contudo, não assumem que a mente pode ser imaterial, pois, claro, isso pode estragar a carreira acadêmica de qualquer um.

  2. Talvez não seja medo. Acredito que mente não se equivale a cérebro. Mas supor que existe uma substância imaterial mental cairíamos no dualismo ontológico cartesiano. O erro está justamente em apontar a mente como se ela fosse uma ‘coisa’, uma substância. É o que Ryle chama de erro de categoria. Por outro lado, confundir mente com cérebro também é um erro, o que acaba coisificando o cérebro como agente criador e independente do corpo.

    • Exatamente Edu. Mas falar que a mente não é a mesma coisa que cérebro, implica dualismo. Não tem como. Alguma forma de dualismo você tem que assumir. E isso não está de acordo com o materialismo tradicional do meio acadêmico. Muitos fogem da questão, por achá-la complexa demais. Gostam de pensar que não se deve estudar a origem da consciência humana. Ouvi isso de um behaviorista: “Não estamos interessados em saber a origem da consciência. Skinner não estava interessado”. E momentos depois estava falando que mente era outra coisa que cérebro! Mas esta é uma questão de paradigmas. Se mente difere do cérebro, isso abre espaço para que ela possa existir sem o mesmo. Tem algumas teorias quânticas da consciência, onde se oferece uma base muito sólida pra se entender isto.

      • Não concordo. É aí que está o erro de ‘categoria’. Lembrei de uma analogia que vi uma vez: onde está a dança quando o dançarino está parado? A dança não é uma coisa, é um fenômeno, não existe sem dançarino. Só porque cérebro e mente não são a mesma coisa, não quer dizer que mente exista sem cérebro. O organismo, incluindo o cérebro, é uma coisa; alguns fenômenos desse organismo denominamos de mente. Podemos evocar a palavra e falar do conceito de mente, assim como de dança, mas ambas não são coisas que existem em si. Leia ‘The Concept of Mind’, de Gilbert Ryle para mais detalhes.

  3. Não quer dizer, mas abre a possibilidade. Você tem hoje alguns fenômenos como EQM que indicam que a consciência pode existir mesmo quando o cérebro está sem atividade alguma. Edu, veja bem, você disse que mente e cérebro são coisas distintas. Isto implica reconhecer que existem processos essencialmente mentalísticos. E você sabe, não é uma coisa confortável para um “cientista” fazer isso. Você quer dizer que a mente não existe sem cérebro? Se a consciência media as nossas experiências, então é pouco provável que esta seja um efeito do órgão físico. E fenômenos como neuroplasticidade e placebo indicam um processo inverso, dificilmente ou não explicável pelo paradigma mecanicista. Tais realidades sugerem que o cérebro é apenas um receptor da consciência. Leia “Irreducible Mind”, de Kelly, para mais detalhes.

    • “…você disse que mente e cérebro são coisas distintas. Isto implica reconhecer que existem processos essencialmente mentalísticos.”

      Não. Não existem processos mentalísticos. A mente É o processo.

      “Se a consciência media as nossas experiências, então é pouco provável que esta seja um efeito do órgão físico.”

      Por quê não poderia ser efeito de órgãos físicos?

      “E fenômenos como neuroplasticidade e placebo indicam um processo inverso, dificilmente ou não explicável pelo paradigma mecanicista.”

      Neuroplasticidade não tem explicação? Desde quando? Até rezas, como também placebos, tem explicações.

      “Tais realidades sugerem que o cérebro é apenas um receptor da consciência.”

      Receptor da consciência? Como uma antena? E o que é consciência? Aliás, mente e consciência são conceitos distintos. Imaginar o cérebro como receptor de uma consciência, é questão de crença, assim como EQM (pelo menos do jeito que você está se referindo à EQM).

      • “Não. Não existem processos mentalísticos. A mente É o processo.”
        Existem processos essencialmente mentalísticos sim. Eu disse que placebo é “dificilmente ou não explicável pelo paradigma MECANICISTA”. Você sabe o que é isso? Me explique como é possível alguém mudar o próprio cérebro, através da neuroplasticidade autodirigida, se a mente é efeito do cérebro. Prove que a mente é efeito do cérebro.

        “Imaginar o cérebro como receptor de uma consciência, é questão de crença, assim como EQM.”
        Edu, desculpa perguntar, mas você é cientista por acaso? Me causa muita estranheza você vir falar que EQM é questão de crença. A EQM é um fenômeno reconhecido cientificamente, caso não saiba. O que se discute é o que causa a EQM. Ainda não existem explicações definitivas, mas tenho a absoluta certeza que você nunca leu ou conhece algum estudo sério da área. Se quiser posso citar vários pra você aqui. Existem casos relatados em ciência, como por exemplo, do Al Sullivan, que foi capaz de reconhecer procedimentos médicos e peculiares, em anestesia. Você não consegue explicar casos como esse, pela visão materialista tradicional. Outros estudos de Parnia já vêm constatando que efeitos biológicos não explicam o fenômeno. Se não estiver satisfeito, posso somar inúmeros argumentos a estes.

        E então, você vem me dizer que é questão de crença? Me poupe, essa foi demais. Boa parte da sua resposta foi uma completa distorção do que escrevi aqui. Caso não saiba, o paradigma materialista não explica tudo. Ser cientista implica reconhecer isso. Isso se chama humildade acadêmica, pois que tem resposta pra tudo é a FÉ, a religião. E o mais estranho, você falou que “acredita”, olha só a palavra que usou, que a mente é diferente do cérebro, mas é incapaz de provar como mente pode ser diferente do cérebro, se constituindo dos mesmos elementos deste. Estou esperando você provar que a mente é outra coisa que cérebro. Eu já tenho argumentos e fatos, agora quero ver qual acrobacia irá fazer para aceitar isto dentro da sua visão materialista de mundo.

  4. “Prove que a mente é efeito do cérebro.”

    Em momento algum afirmei que a mente é efeito do cérebro, e não vou ficar repetindo o que já falei. Também não disse que EQM é questão de crença, eu disse que “a sua interpretação” deste fenômeno é questão de crença. Isso mostra que você está mais preocupado em ser do contra do que fazer um mínimo de esforço pra entender uma outra visão. Além disso não tem ideia dos conceitos que usa, e, pior, fica querendo advinhar e sugerir meus pontos de vistas. Por isso eu paro de tentar dialogar por aqui.

    Passe bem!

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