A FALÁCIA DA NARRATIVA COGNITIVISTA

O Behaviorismo está morto! – bradam os cognitivistas. A hegemonia behaviorista na primeira metade do século XX marca uma época obscura na história da psicologia, a Idade das Trevas como satiriza Roddy, tempos de ignorância e enganos superados graças à sagacidade da ciência cognitiva a partir da década de 50. No início do século passado, John B. Watson foi o vilão dessa desventura: o malvado cientista que, com suas artimanhas, podia fazer qualquer bebê se transformar em qualquer coisa. Mas os behavioristas tinham seus dias contados. A velha teoria do estímulo e resposta da escola behaviorista revelou-se errada1, e quase de um dia pro outro, os psicólogos começaram a pensar em termos de cognição e não somente em comportamento2. Todo domínio behaviorista foi posto a baixo graças a nossos heróis cognitivistas. De certo, não esperavam que o mal ousaria se reerguer na figura de Burrhus Skinner, que assume as rédeas do behaviorismo. Confuso, Skinner difundia suas fantasias insanas: ele acreditava que estados mentais não eram nada além de uma ilusão3. Contudo, a maioria dos psicólogos já não mais levava o behaviorismo a sério4. Inserido no meio dessa agitação, Skinner não tem chance alguma, seus domínios pouco avançam. A psicologia cognitiva finalmente impera.

Skinner

Todo esse cenário épico encantador, reproduzido – embora não tão dramático assim – em muitos, se não todos, livros de reconhecidos cognitivistas não passa, entretanto, de uma história mal contada. História que fazem questão de repetir quantas vezes forem possível e necessária para… para quê? Um leitor mais atento pode notar que nas introduções dos livros de psicologia cognitiva, os autores parecem estar mais preocupados em atacar o behaviorismo (curiosamente descrito sempre no passado) do que em apresentar sua própria abordagem. De acordo com esses autores os behavioristas ortodoxos (muitas vezes chamados behavioristas radicais) rejeitavam especulações sobre os pensamentos internos (…) e termos referentes a eventos mentais, como imagem, ideia e pensamento” (MATLIN, 2004, pág.4). O triunfo da ciência cognitiva, segundo eles, foi justamente explorar o que o behaviorismo havia rejeitado: a mente e suas atividades de aquisição, armazenamento, transformação e aplicação do conhecimento. E, nesse entusiasmo, não se sabe se por malícia ou conhecimento limitado, acabam por reunir num mesmo pacote uma série de teorias, e rotulam “behaviorismo”.

É importante notar, entretanto, que “comportamento” para Skinner tem uma concepção bastante diferente da adotada no senso comum e pela tradição científica não-behaviorista-radical; para ele existe muito mais em um comportamento do que aquilo que podemos observar de um movimento muscular. Ao contrário do que a narrativa cognitivista afirma, Skinner ampliou o campo teórico do behaviorismo, estendendo-o para a compreensão dos fenômenos mentais. Ele não só considera os processos mentais, como assume a dianteira na investigação das contingências em que eles ocorrem. O que a análise comportamental rejeita é a suposição de que atividades ditas mentais ocorrem no mundo misterioso da mente. Tal suposição, argumenta Skinner, é uma metáfora injustificada e perigosa.

Anos se passaram, e, com eles, progressos dramáticos na análise do comportamento, mas as críticas e más compreensões não mudaram muito, como pode-se perceber na grande maioria dos livros de história da psicologia e principalmente nos textos introdutórios de psicologia cognitiva. A confusão com os conceitos dos primeiros behavioristas não basta para explicar tais incompreensões acerca do behaviorismo radical. Algumas das acusações, na verdade, não se refere nem aos primeiros behavioristas. O impasse surge sem dúvida, como percebeu Skinner, do fato de ser o comportamento humano um campo delicado:

 Deve haver alguma outra razão que explique por que o behaviorismo, como filosofia da ciência do comportamento, é ainda tão mal compreendido. Alguns problemas surgem, sem dúvida, do fato de ser o comportamento humano um campo delicado. Há muita coisa em jogo no modo que nos vemos a nós mesmos e uma formulação behaviorista certamente exige mudanças perturbadoras. Como filosofia de uma ciência do comportamento, o behaviorismo exige, provavelmente, a mais dramática mudança jamais proposta em nossa forma de pensar acerca do homem. Trata-se literalmente de virar pelo avesso a explicação do comportamento. Além disso, termos originários de formulações anteriores estão hoje incorporados à nossa linguagem, sendo que, durante séculos, tiveram um lugar tanto na literatura técnica quanto na literatura leiga (1974).

Épico mesmo é a tarefa que o behaviorismo radical* tem para superar tantos desafios ao propor essas mudanças radicais e reformular todo um pensamento impregnado em séculos de linguagem científica e popular. O behaviorismo radical não ignora os eventos mentais como dizem os cognitivistas, apenas apresenta uma explicação alternativa para os eventos mentais. Comportamento para Skinner abarca toda a atividade do organismo, e a mente faz parte dessa atividade. Ver, portanto, a psicologia cognitiva como uma continuação, superação, ou um complemento do behaviorismo radical é um erro. As duas teorias seguem caminhos diferentes. A psicologia cognitiva não prossegue de onde o behaviorismo parou, eles têm explicações alternativas para os mesmos fatos. De certo, a ciência cognitiva ofereceu novas metodologias para a pesquisa dos eventos ditos psicológicos, principalmente com a neurociência cognitiva, mas que não invalida as proposições behavioristas. Skinner já dizia:

 Uma análise comportamental reconhece a importância da pesquisa fisiológica.  Novos instrumentos e novos métodos continuarão a ser ideados e eventualmente chegaremos a saber mais acerca dos processos fisiológicos, químicos ou elétricos que ocorrem quando uma pessoa age. O fisiólogo do futuro nos dirá tudo quanto pode ser conhecido acerca do que está ocorrendo no interior do organismo em ação. (…) Ele será capaz de mostrar como um organismo se modifica quando é exposto às contingências de reforço e por que então o organismo modificado se comporta de forma diferente, em data possivelmente muito posterior. O que ele descobrir não pode invalidar as leis de uma ciência do comportamento, mas tornará o quadro da ação humano mais completo. (1974)

Por outro lado, a psicologia cognitiva trouxe de volta o, já superado pelo behaviorismo radical, homúnculo, o fantasma da máquina, que tem intenção própria e age livremente.  O modelo cognitivo computacional, representado pelo cérebro, reassume um papel ativo na causalidade do comportamento. Diz-se que a explicação do “comportamento sem alusão a um nível intencional intermediário é quase impossível, ou pelo menos anti-econômico”. Qual seria a explicação econômica? Diria Pinker: “Por que Pedro saiu correndo do prédio? Por que o prédio pegava fogo, e ele não queria morrer.” Ou seja, Pedro saiu do prédio simplesmente porque quis, porque teve intenção. Seria essa uma explicação econômica? Econômica até demais, que, como diria Skinner, não explica nada. No behaviorismo radical não há lugar para um eu como verdadeiro originador ou iniciador da ação, em vez disso ele aponta para as fontes ambientais do comportamento, seja durante a história evolutiva do organismo, ou durante a história de vida do indivíduo: “O que levou Pedro a querer sair do prédio?”

“Mas, então, o behaviorismo não morreu? Fui enganado a vida toda? Então o que aconteceu com o behaviorismo desde a época pré-cognitiva?” Essa é a pergunta que Henry Roediger buscou responder em seu artigo What Happened To Behaviorism, de 2004. – Não, o Behaviorismo não morreu! – ele responde, – e vai muito bem obrigado. Para Roediger, psicólogo cognitivista e ex-presidente da American Psychological Society, o behaviorismo está vivo e a maior parte dos psicólogos experimentais hoje em dia é behaviorista. Muitos aspectos do behaviorismo na verdade nunca saíram de cena. Na verdade, diz ele, o behaviorismo venceu, pois tanto o pesquisador cognitivista quanto o comportamentalista estudam, no fundo, o comportamento. Roediger termina seu artigo sugerindo a leitura do livro Ciência e Comportamento Humano, escrito por Skinner há mais de 50 anos atrás:

 “Leiam o livro e celebrem o poder das análises comportamentais, mesmo se – e principalmente se – você for um daqueles psicólogos cognitivistas que acreditam que o behaviorismo é irrelevante, obsoleto e/ou que está morto; ele não está.”

*Todorov sugere que esse termo não é mais necessário, pois hoje em dia não há outros behaviorismos que não o skinneriano.

GAZZANIGA, M.S.; IVRY, R.B.; MANGUN, G.R. Neurociência Cognitiva: a Biologia da Mente. 2ªed. Porto Alegre: Artmed, 2006. (2pág. 34; 4pág. 37)

GAZZANIGA, M.S. e HEATHERTON, T.F. Ciência Psicológica: Mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005 (3pág. 54)

MATLIN, M.W. Psicologia Cognitiva, 5ªed. Rio de Janeiro: LTC, 2004

PINKER, S. Como a mente funciona. São Paulo: Companhia das Letras, 1998 (1pág. 76)

ROEDIGER, H.L. O que aconteceu com o behaviorismo. Revista brasileira de análise do comportamento, 2005, vol.1 no. 1, pág1-6. Disponível em: http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/rebac/article/view/672/957

SKINNER, B. F. Sobre o behaviorismo. 10ª edição – São Paulo: Cultrix, 2006 [1974]

TEIXEIRA, J.F. Mente e comportamento. Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 22, n. 30, p. 27-40, jan./jun. 2010.

TODOROV, J. C. A Morte do Behaviorismo. 2010. Disponível em: http://jctodorov.blogspot.com.br/2010/08/morte-do-behaviorismo.html

ZILIO, D. A Natureza comportamental da mente: Behaviorismo Radical e Filosofia da Mente. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010.

O Cérebro da Mosca
ocerebrodamosca.wordpress.com
https://ocerebrodamosca.wordpress.com/

7 pensamentos sobre “A FALÁCIA DA NARRATIVA COGNITIVISTA

  1. Questionável a nota do Todorov. Até onde percebo, houve e há uma variedade de escolas escondidas sobre a égide behaviorista. Será que o Todorov pensa que o behaviorismo professado pelo Staddon é do mesmo tipo daquele que o Skinner delineou?

    • Não conheço muito a obra de Staddon para dar minha opinião pessoal. Já Todorov reconhece a contribuição de outros autores, incluindo Staddon que aperfeiçoou as metodologias usadas por Skinner e propôs uma nova interpretação para os resultados, mas não sei como ele faz essa distinção entre as diferentes propostas.

    • Também acho precipitada a afirmação do Todorov, principalmente porque o uso da palavra “behaviorismo” ainda deixa uma margem grande para uma série de enganos históricos. Se já confundem os behaviorismos, imagine se não usassem a palavra.

  2. O Staddon foi apenas um exemplo. Há vários outros casos de abordagens behavioristas que destoam do Behaviorismo Radical em termos conceituais e filosóficos.

  3. O Emílio Ribes-Iñesta, por exemplo, é um psicológico que desenvolveu sua abordagem behaviorista a partir do interbehaviorismo kantoriano e da filosofia da linguagem de autores como Ryle e Wittgenstein. Ou seja, neste caso, diferente do caso do Staddon, o Behaviorismo Radical não funciona nem como matriz prévia para o desenvolvimento do programa de pesquisa do Ribes-Iñesta.

  4. Pingback: ALGUNS ASPECTOS DO BEHAVIORISMO RADICAL DE SKINNER EM “SOBRE O BEHAVIORISMO” (1974) |

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