EXPLORANDO JEAN PIAGET

Na psicologia, Jean Piaget foi um dos pensadores mais influentes do século XX. Nascido em Neuchâtel, Suiça, no ano de 1896, Piaget alcançou reconhecimento internacional com suas ideias sobre o desenvolvimento cognitivo humano, e pela aplicação de suas teorias na prática pedagógica contemporânea. Um dos seus maiores feitos foi ter colocado no campo da experiência científica as questões que concerne ao estudo do conhecimento, ou seja, em suas pesquisas ele investiga experimentalmente a gênese das estruturas cognitivas fundamentais e a elaboração das categorias de pensamento.

Piaget

Inicialmente, Piaget se formou em Biologia e só posteriormente ele veio a se dedicar à área da Psicologia, Epistemologia e Filosofia. Das ciências naturais, ele importou diversas formulações teóricas que fundamentaram as suas teorias sobre o desenvolvimento humano. Ao seu projeto de explicação biológica do conhecimento, ele dá o nome de epistemologia genética – genética entendida no sentido de gênese, origem; visando responder a questão básica: Como se constrói o conhecimento? A epistemologia até então ocupara um problema da filosofia, sempre abordada unicamente a partir da especulação pura. Se a epistemologia tradicional se preocupava apenas com os estados superiores do conhecimento, a epistemologia genética busca nas fontes apreender a gênese do conhecimento na perspectiva em que não há conhecimento predeterminado nem nas estruturas do sujeito, nem nas características do objeto. É, pois, no contexto de uma interação entre o sujeito e o objeto que se situa a problemática.

É importante notar que Piaget está inserido num momento de grande agitação científica em que a teoria da evolução proposta no século XIX estava se estabelecendo e abrindo novas perspectivas para compreensão da vida. O homem e seus atributos já tinham sido alvo de objeto de estudos do próprio Darwin. Dentro desse campo, Piaget, ao se interessar pela filosofia, tentou formular uma teoria que articulasse a questão da origem e desenvolvimento do conhecimento humano com a biologia. Para ele, a inteligência humana é uma das formas de adaptação que a vida assumiu em sua evolução. Sua função é auxili­ar na adaptação ao ambiente, consequência da criação contínua de formas cada vez mais complexas no decurso da evolução em busca de um equilíbrio progressivo entre essas formas e o meio. A inteligência deixa de ser uma questão misteriosa e quase metafísica da teoria clássica e passa ser objeto de investigação científica, podendo ser definida enquanto função e estrutura. Como função a inteligência é uma adaptação ao meio visando a sobrevivência. Do ponto de vista estrutural, inteligência é a organização de esquemas que possibilita o sujeito a lidar com o meio. Crescimento da inteligência, portanto, não se dá tanto por acúmulo de informações, mas sobretudo por uma reorganização dessa inteligência, ou seja, crescer é reorganizar a própria inteligência para ter mais possibilidades de conhecimento.

Os trabalhos de Piaget apontam que entre o pensamento da criança e do adulto há uma construção contínua de estruturas variadas. Para ele, o conhecimento não tem um desenvolvimento linear, por acúmulo, mas se dá por saltos, por rupturas. Essas etapas, chamadas estágios, representam uma lógica da inteligência que será superada por um estágio superior representando outra lógica do conhecimento. Essa superação se dá na dialética da assimilação e da acomodação no processo de equilibração, conceitos fundamentais na obra de Piaget. Por assimilação se entende a incorporação de elementos do meio à estrutura, para adaptar novas as informações aos esquemas existentes e superar um desequilíbrio cognitivo. Quando as novas informações são assimiladas ocorre o processo de acomodação, que é a modificação dos esquemas a fim de considerar a nova informação proveniente do meio. A adaptação se dá, portanto, num equilíbrio progressivo entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar. “É adaptando-se às coisas que o pensamento se organiza a si próprio e é organizando-se a si próprio que ele estrutura as coisas.”

Jean Piaget

A sequência do desenvolvimento passa necessariamente por uma série de etapas, os já citados estágios, que consistem em conquistas sucessivas de equilíbrio sempre mais estáveis, sendo a ordem de sucessão sempre a mesma, embora a cronologia varie. Os estágios apresentam caráter integrativo, ou seja, as estruturas construídas a um nível são integradas nas estruturas do nível seguinte. Piaget aplicou-se a estudar essas estruturações sucessivas a partir das estruturas iniciais dos recém-nascidos, demonstrando que a inteligência começa a se estruturar muito antes da linguagem. Esse primeiro estágio, chamado sensório-motor, é a forma mais humilde da inteligência humana, pois é uma inteligência sem pensamento, sem representação e sem linguagem, mas é uma etapa fundamental, pois as outras, não só dependem, mas não existiriam sem ela. No recém-nascido a vida mental se reduz a atividades do aparelho reflexo e de tendências instintivas. Os primeiros hábitos motores e percepções se tornam mais complexos pelo exercício dessas atividades, pelo aumento da capacidade de manipulação e pelo acúmulo das experiências, constituindo o ponto de novas condutas. Esse estágio se caracteriza por uma inteligência prática, que se refere a manipulação, através da percepção e de movimentos em lugar de palavras e conceitos. Uma ação apta a ser repetida e generalizada para situações novas é comparável a uma espécie de conceito senso-motor. Alguns processos fundamentais caracterizam essa etapa, como a construção das categorias de tempo, objeto, espaço e da causalidade, que são ainda categorias práticas, e não noções de pensamento.

Com dois anos de idade a qualidade da inteligência se modifica. No estágio pré-operatório, a principal característica é o desenvolvimento da capacidade mental de representação interna. Nesse estágio há o aparecimento da linguagem e do pensamento propriamente dito. A criança torna-se capaz de reconstituir suas ações passadas e antecipar suas ações futuras. Esse pensamento é caracterizado, entretanto, por sua rigidez e sua irreversibilidade, que só será superada no estágio seguinte. Outra característica importante é a manipulação de conceitos de forma egocêntrica, que pode parecer sem qualquer coerência, pois a criança diz sem considerar o interlocutor. A linguagem, desenvolvida nesse período, conduz a socialização das ações, inserindo a criança num sistema de pensamento e valores coletivos.

No estágio operatório-concreto, aproximadamente 7 ou 8 anos até os 11 ou 12 anos de idade, a linguagem egocêntrica desaparece, e a criança torna-se capaz de cooperar. Além disso, elas tornam-se capazes de manipular mentalmente de forma lógica as repre­sentações internas que formaram durante o período pré-­operatório. Elas agora, não só têm ideias e memórias dos objetos, mas também podem rea­lizar operações mentais com essas ideias e memórias. Ao contrário do estágio anterior, ela possui a capacidade de realizar operações de reversibilidade. No operatório concreto a criança faz uso da capacidade operatória apenas em cima de objetos que ela possa manipular ou situações que ela possa lembrar a vivência. No próximo estágio, operatório-formal, a partir dos 12 anos aproximadamente, ela vai trabalhar com puras hipóteses, ou seja, ela será capaz de abstrair e operar sua lógica em contextos que sejam puramente hipotéticos. As crianças tornam-se capazes de compreender algumas coisas que elas mesmas não tenham experimentado diretamente, elas são capazes de ver da perspectiva dos outros e procuram intencionalmente criar uma representação mental sistemática das situações com as quais se deparam.

Em suma, para Piaget, alguns fatores são essenciais para o desenvolvimento cognitivo humano. A maturação nervosa abre certo campo de possibilidades, no interior do qual se atualizarão determinado número de condutas. Mas a maturação em si não é suficiente para explicar as operações lógicas, o que supõe como necessário, certas condições como experiência na ação efetuada sobre os objetos, interações e transmissões sociais (linguagem). A experiência ambiental dos organismos entra como influência formativa necessária, não ocorrendo nenhuma pré-formação ou pré-determinação dos genes. No todo, a equilibração é um fator determinante, pois é através desse processo que ocorre uma reorganização das estruturas cognitivas, levando o conhecimento em direção a formas de equilíbrio cada vez mais amplas e de níveis superiores, possibilitando o sujeito cognoscente a melhor se adaptar ao seu meio.

Referências

DOLLE, J-M. Para compreender Piaget. Porto Alegre: Instituto Piaget, 2005.

LA TAILLE, Yves et al. Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias psicogenéticas em discussão. SP, Summus, 1992

PIAGET, Jean. Seis Estudos de Psicologia. 24ªed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999

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