ESTAMPAGEM (IMPRINTING)

A discussão sobre a determinação de nossos comportamentos tem se limitado à oposição inato x aprendido, e pouca atenção tem sido dada à estampagem. Denominamos estampagem (ou imprinting, em inglês) o fenômeno onde há liberação de padrões de comportamentos que se dá, de certa forma, por uma combinação de fatores filogenéticos com eventos ambientais. Em outras palavras, o comportamento é determinado por um componente inato – uma tendência – em respostas a eventos que ocorrem durante a história de vida do indivíduo. Alguns autores costumam apontar a estampagem como uma forma de aprendizagem. Entretanto, esse evento apresenta algumas características que o distinguem da ‘aprendizagem comum’. Ficou meio confuso… segue o texto que fica mais claro!

estampagem cachorro patinhos

Filhotes estampados com membros de outra espécie.

A estampagem ocorre, grosso modo, quando comportamentos inatos são liberados em resposta a um estímulo aprendido. O interesse por este campo de pesquisa está ligado à compreensão, entre estudiosos do comportamento, de que a estampagem e processos semelhantes podem ser muito significativos para o desenvolvimento ontogenético de indivíduos de muitas espécies, entre as quais talvez se inclua a nossa. Algumas observações sistemáticas sobre o fenômeno já haviam sido descritas no século XIX por Douglas Spalding. William James também chegou a especular sobre o assunto em suas obras, e sugere que este tipo de comportamento é ao mesmo tempo inato e adquirido. Mas o termo imprinting foi inicialmente empregado pelo etologista Konrad Lorenz, na década de 30 do século passado, que ficou impressionado com o fato de certas espécies de aves filhotes não reconhecer instintivamente os membros de sua espécie. Seu dom instintivo apenas o predispõe a seguir a primeira coisa em movimento que encontra – normalmente sua mãe, às vezes outro membro de sua espécie, ocasionalmente um membro de outra espécie (ver imagem acima). Depois de ter uma pequena experiência com sua mãe, outro animal, ou talvez com um ser humano, o jovem animal forma uma ligação duradoura com o indivíduo, ou classe de indivíduo, que inicialmente seguiu. Dizemos que o animal filhote foi estampado. O comportamento de aproximar e acompanhar é inato, mas o objeto a ser acompanhado é aprendido durante a vida do indivíduo.

A concepção original de Lorenz a respeito da estampagem era bem definida, mas, à medida que pesquisas foram sendo desenvolvidas e os dados começaram a acumular-se, essa concepção tem sofrido algumas mudanças. Embora não haja uma definição exata do fenômeno, podemos destacar algumas de suas características. Um dos aspectos específicos da estampagem é que ela ocorre durante um período muito definido e curto na vida do indivíduo, ou seja, há necessidade de um estado fisiológico específico durante o desenvolvimento do organismo. Outro apecto é que a aquisição do comportamento não é conduzidada por estímulos reforçadores sobre o comportamento do organismo; ao contrário, uma exposição muito limitada no tempo frente ao estímulo desencadeia de forma efetiva todo o comportamento subsequente. O comportamento, uma vez ‘estampado’, não pode ser esquecido (há controvérsias, mas os autores concordam que a estampagem é, no mínimo, dificilmente reversível). O comportamento estampado parece, enganosamente, como se fosse puramente instintivo, como uma resposta incondicionada.

Um dos exemplos mais conhecidos, já citado e também exemplificado no vídeo acima, é o da resposta de aproximação e acompanhamento em algumas espécies de aves filhotes, como patos, gansos, pintinhos. Esses filhotes tendem a seguir os pais assim que saem do ovo. A tendência inicial dos filhotes para agarrar-se às figuras dos pais, ou para segui-los, pode ser descrita como inata ou instintiva, ou seja, os filhotes não são instruído a comportar-se dessa maneira. A aproximação é uma resposta à estimulação. Entretanto, a ligação à determinada classe de objeto, ou a preferência por ela, é adquirida; o patinho segue qualquer objeto em movimento que primeiro tenha visto após sair do ovo, independente de ser a mãe pata, um gato, ou um humano, ou até objetos inanimados movimentados mecanicamente. Se o filhote não adquirir este hábito até aproximadamente quatro dias, por estar privado de ver por exemplo, ele nunca mais vai adquirir esta ligação permanente.

estampagem patoAs respostas estampadas são respostas à estimulos. A caracterização do caráter dessa estimulação tem sido o objetivo de muitas pesquisas. As primeiras observações mostraram que o acompanhamento podia ser provocado por animais em movimento, pessoas e até objetos inanimados. Em muitos experimentos foram usados imitações e modelos simples de animais. Outros experimentos foram realizados com objetos em movimento que não se assemelham muito a animais reais, como caixas, bexigas, trens de brinquedo, bola de futebol, calçados e assim por diante. Os resultados mostraram que o estímulo não tinha de ser semelhante aos pais naturais, ao contrário, alguns objetos eram até mais eficientes para liberar o acompanhamento. Em pesquisas sequentes, os pesquisadores acabaram por perceber que o “objeto em movimento” não precisa estar necessariamente em movimento. A oscilação visual, originada de luzes piscando por exemplo, também era capaz de provocar respostas de aproximação nas aves filhotes. Baseado nesses estudos no final da década de 50, pensaram que a luz oscilante deve ser tão atraente para pintinhos recém-nascidos do ovo quanto um objeto em movimento, pois o efeito retiniano de ambos será igual. Em seguida, vários estudos a partir da década de 60 demonstraram estampagem com objetos estacionários. Concluíram que  nem o movimento real e nem o imaginário são necessários para a estampagem, e que qualquer estímulo não-desagradável que domine o ambiente sensorial do filhote durante um período inicial de desenvolvimento deve provocar respostas de aproximação e acompanhamento. Na natureza, também a estimulação auditiva é usualmente um componente importante de uma configuração de estímulos diante da qual ocorre estampagem. É possível que, em algumas espécies, a função dos sons emitidos pelos pais seja, fundamentalmente, chamar a atenção dos filhotes. Em outras espécies, no entanto, a estampagem auditiva pode ser tão importante quanto a visual, e talvez ainda mais importante do que esta.

Originalmente, o termo estampagem foi aplicado a esses eventos de resposta de aproximação e acompanhamento de filhotes de aves. Mas, considerando as descrições de comportamentos aparentemente semelhantes à estampagem em outras espécies e em relação a outros comportamentos, pareceu razoável usar mais livremente o termo estampagem. Na medida em que a estampagem é um tipo epecial de aprendizagem – rápida, duradoura e não provocada por reforço – alguns outros tipos de comportamento podem ser considerados como sendo mais ou menos semelhantes à estampagem. Algumas pesquisas, inclusive, tem especulado eventos desse tipo em relação à sexualidade humana, uma discussão que pretendo abordar em um post futuro.

Veja mais sobre:

W. Sluckin. Imprinting and Early Learning, 1970 (livro com tradução em português)
J. Bolhuis e G. Horn. Generalization of Learned Preferences in Filial Imprinting. Animal Behavior, 1992
T. Bereczkei et al. Sexual imprinting in human mate choice. Proc Biol Sci. 2004
R. O’reilly e M. Johnson. Object Recognition and Sensitive Periods: A Computational Analysis of Visual Imprinting. Cognitive Neuroscience, 1993
S. Cardoso e R. Sabbatini. Aprendendo Quem é a Sua Mãe: O Comportamento do Imprinting

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