ECOLOGIA DO COMPORTAMENTO HUMANO?

A psicologia do início do século XX se casou com a biologia. Mas a biologia, na tentativa de entender o bicho homem, não assumiu os filhos da união.

psicologia-evolutiva

A teoria da evolução de Darwin, desde o final do século XIX chamou muita atenção e foi fundamento importante, às vezes essencial, nas construções teóricas de Freud, Vygotsky e Luria, Mead, Piaget, Skinner etc. Todos eles, apesar de diferentes visões, acolheram as consequências do paradigma darwiniano, e trataram de estabelecer um conhecimento psicológico não mais pautado em categorias transcendentais, mas como resultado de um mundo natural.

Se Darwin tinha a expectativa de novas formulações acerca da mente, a psicologia, de mãos dadas com a filosofia, perguntou: mas o que é essa tal de mente? A biologia, implicada em outras questões, não se meteu no assunto. A psicologia, ao contrário, não se manteve alheia à biologia, Skinner chega a afirmar que “se a psicologia é uma ciência do comportamento dos organismos, humanos ou não, então é parte da biologia”.

Chegou o dia então, na segunda metade do século XX, que os biólogos resolveram tratar das psicocoisas dessa espécie tão falada, o Homo sapiens.

Que fizeram? Foram buscar os filhos abandonados durante décadas? Não! Resolveram começar praticamente do zero.

Nas últimas décadas, os membros dessa grande família desestruturada nem mais se reconheciam… e pipocavam crias: etologia humana, ecologia comportamental, eto-ecologia, sociobiologia, antropologia psicológica, psicologia evolutiva, psicologia comparada, psicobiologia, psicologia ecológica… tantos nomes redundantes…

Na Inglaterra e em outros países fala-se de Human Behavior Ecology (HBE), algo como “ecologia do comportamento humano”, um campo mais estrito dentro do campo maior que é a ecologia comportamental (BE).

Veja só: HBE é um campo de estudos que floresceu em meados da década de 70. Segundo os autores de uma revisão publicada esse ano, HBE é o estudo do comportamento humano numa perspectiva adaptativa, ou seja, investiga-se como o comportamento está relacionado com condições ecológicas – por condições ecológicas entende-se o ambiente físico e o ambiente social, assim como o próprio estado do indivíduo. Isso porque o comportamento não é totalmente controlado pelos genes. Pelo contrário, o organismo apresenta um conjunto de mecanismos que possibilitam uma aprendizagem individual e social, o que permite ele adquirir estratégias comportamentais mais adaptadas para o ambiente específico em que ele está inserido. Devido a essa plasticidade comportamental e à capacidade de aprender, podemos nos adaptar a novos ambientes mais rapidamente do que se fosse necessário mudanças genéticas.  (Nossa! Como ninguém pensou nisso antes?)

 A HBE rejeita a noção de que abordagens fundamentalmente diferentes são necessárias para explicar o comportamento humano. O homem é só mais uma espécie dentre muitas, e, portanto, as estratégias científicas para se explicar o comportamento de outras espécies são as mesmas para tentar explicar o comportamento do bicho homem.

Índice

Nada de novo, né? Para quem conhece psicologia – principalmente a análise do comportamento – sabe que desde o comecinho do século XX já se falava isso.

Do Retrocesso Cognitivo – que alguns insistem em chamar de Revolução Cognitiva – alguns autores tomaram formulações emprestadas para compor o que passaram a chamar de psicologia evolutiva (PE). Se a ecologia comportamental dá mais ênfase ao contexto ambiental, a PE se preocupa é com o cérebro. Para eles, comportamentos, sentimentos e pensamentos são resultados da mente, e a mente é resultado do cérebro, que por sua vez é resultado da seleção filogenética. Falam de “mente” adaptada, mas pouco se questionam sobre o que é isso que chamam de mente, e não adotam outros modelos evolutivos não adaptativos. A PE, como os próprios autores da abordagem descrevem:

“é uma abordagem evolutiva (no sentido darwinista) da psicologia que começou a se desenvolver na década de 1980…”

Sério? Então outras abordagens na psicologia estão pouco se lixando pra evolução?

“…o objetivo específico da PE  é investigar como as faculdades mentais emergem filogeneticamente e se desenvolvem, no sentido ontogenético.”

Huum…anos 80… filogênese mais ontogênese… Uau! Puta novidade em!

O grande marketing da psicologia evolutiva é dizer que eles têm contribuído para superar a suposição de que a mente humana se constituiria sobre uma tábula rasa… Ok, ok… de quem será que eles estão falando? John Locke?

E por aí vai… cada psico-bio-disciplina no seu quadrado.

O certo é que essas novas abordagens, adotadas pela biologia, deram muito mais ênfase à fisiologia do que a Análise do Comportamento. Isso é louvável. Skinner já havia dito:

 Novos instrumentos e novos métodos continuarão a ser ideados e eventualmente chegaremos a saber mais acerca das espécies de processos fisiológicos, químicos ou elétricos que ocorrem quando uma pessoa age. O fisiólogo do futuro nos dirá tudo quanto pode ser conhecido acerca do que está ocorrendo no interior do organismo em ação. (…) Ele será capaz de mostrar como um organismo se modifica quando é exposto às contingências de reforço e por que então o organismo modificado se comporta de forma diferente, em data possivelmente muito posterior. O que ele descobrir não pode invalidar as leis de uma ciência do comportamento, mas tornará o quadro da ação humana mais completo.

A última frase que destaquei já diz tudo.

Só espero que toda essa redundância acabe um dia e que sejamos capazes de falar a mesma linguagem, pois o assunto sobre o qual falamos já é o mesmo. Quando houver um verdadeiro diálogo entre as comunidades científicas, perceberão que elas têm muito a contribuir uma com as outras.

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