UM QUADRADO NA PSICOLOGIA

Uma coisa que eu aprendi no curso de psicologia é que temos muitos colegas que falam muito mas não dizem nada. Ou, como dizem por aí, ficam “enchendo linguiça”! Há muitos professores assim, e a maioria dos alunos não vê problema nisso: eles adoram, e aprendem direitinho.

O uso de conceitos é um problema em qualquer ciência, mas nas ciências humanas, em especial na psicologia, esse problema é levado ao extremo, e parece que ao longo da formação todos vão aprendendo esse método discursivo que é falar muito sem dizer nada.

O problema surgiu, provavelmente, da dificuldade de se conceituar aquilo que é do campo do humano. Só que, ao invés de problematizar o uso de conceitos nas ciências humanas, a maioria prefere simplesmente aboli-los e relativizar tudo… Tudo é subjetivo! Tudo pode ser dito sobre tudo. Tudo é e não é ao mesmo tempo. Tudo é tudo, tudo é nada, nada é tudo, e nada é nada! Como diria o mestre Tim Maia, “vale tudo!”.

A justificativa para essa relativização total é que eles recusam qualquer tentativa de se produzir uma verdade sobre o homem. E “conceito” para eles é igual “verdade”. Logo, se não há verdades, não há conceitos.

Mas, convenhamos, um conceito não é a verdade sobre uma coisa, ou sobre um fenômeno. Um conceito é só um instrumento de linguagem para a gente falar sobre alguma coisa. Logo, ele define uma ideia sobre essa coisa sobre a qual falamos, o que facilita nossa comunicação. O conceito é uma palavra funcional, ou seja, ela tem que funcionar de forma pragmática. Se não funcionar, ou o conceito está errado ou não há necessidade dele.

Por exemplo, o conceito de quadrado é: “uma figura geométrica com quatro lados de mesmo comprimento e quatro ângulos retos”. O que podemos fazer com esse conceito de quadrado? Muitas coisas: planejar construções, fazer origamis, medir áreas, referir a objetos, dançar a dança do quadrado, etc. Enfim, é uma palavra funcional que usamos no nosso dia-a-dia, o tempo todo.

Agora, ainda seguindo o exemplo, o que o professor que gosta de encher linguiça falaria sobre o quadrado: “Imagine quatro linhas que se afetam e se tocam em suas extremidades. No encontro dessas diferentes linhas, cada uma semelhante entre si, mas ao mesmo tempo diferente no tempo e no espaço, emerge o que a sociedade desde a época antiga chama de quadrado. Mas definir o quadrado como possuindo quatro lados limita toda potencialidade do quadrado em se expandir para além de suas fronteiras. Um quadrado é muito mais do que ter quatro lados. Não importa os lados, não importa os ângulos, o que define o quadrado não é sua essência, mas é seu devir, o estar sendo quadrado. Ser quadrado está para além do quadrado e de todo enclausuramento geométrico em que tentam enquadrar figuras que podem ser muito mais do que simples quadrados. Os quadrados podem mais. Um sábio que vivia na Grécia antiga já dizia que o quadrado não é…”

[Tá bom por aqui. O professor passaria o semestre todo discursando sobre o quadrado.] Discurso bonito, né? Eu sei. Ficou bastante poético, foi de propósito. Veremos daqui a pouco que tem gente que acha que discursar dessa forma é filosofar – por favor, não confunda! Tem gente também que diria que o professor está problematizando o conceito de quadrado. Podemos entender problematizar pela seguinte definição (tirada de um artigo):

problematizar é a ação de relacionar, de forma coerente e sequenciada, três momentos, a saber: identificação de um problema relevante, específico e objetivo; a busca de fatores explicativos do problema de forma suficiente e pertinente e a proposição de solução (ou soluções) factíveis e adequadas.

Vemos, pois, que nosso professor que gosta de “encher linguiça” também não está problematizando nada, pois ele não identifica nenhum problema na forma tradicional de conceituar o quadrado, muito menos um problema relevante – você vê algum problema? –; caso ele tivesse identificado algum problema, ele em nenhum momento explica de forma suficiente, coerente e sequenciada qual é este problema; e por último, como não há problemas, também não há nenhuma proposta de solução.

Agora veja: se você está tentando explicar para alguém o que é um quadrado e dá uma explicação assim como nosso professor, a pessoa fica mais perdida do que antes, certo? Em nenhum momento foi apresentado uma definição de quadrado, pelo contrário, veja os trechos que eu destaquei: “Definir o quadrado como possuindo quatro lados limita toda potencialidade do quadrado”; “Um quadrado é muito mais do que ter quatro lados. Não importa os lados, não importa os ângulos.”

Qual a função que a ideia de um quadrado descrito dessa forma poderia ter?

Por exemplo, considere o seguinte conjunto de figuras:

psicologia geometria

Imagine agora que você está querendo apontar uma dessas figuras à distância para alguém. Para isso, você se refere dessa forma: “– É aquela, a figura quadrada.”

Se quadrado está no sentido de possuir quatro lados do mesmo comprimento com quatro ângulos retos, a pessoa entende facilmente sobre qual figura você se refere. Mas se quadrado “é muito mais do que ter quatro lados, se para ser quadrado não importa os lados e nem os ângulos…”, ora, qualquer uma das figuras pode ser quadrado. Tudo é quadrado, ou nada é quadrado… sei lá! Já nem se sabe mais o que é quadrado.

Apesar da bonita descrição, não dá para se referir a quadrados dessa forma porque é uma descrição que não funciona. Simplesmente não tem sentido algum! E também não é nenhuma problematização, como expliquei anteriormente. É perda de tempo.

Outro exemplo. Veja esse passo a passo de como fazer um origami:

“Passo 1: para começar, você terá que ter um papel de um tamanho quadrado. Passo 2: dobre a folha ao meio. Passo 3…”

Opa! O primeiro passo já seria um problemão. Como eu iria começar meu origami se eu nem sei bem o que é um quadrado, já que para ser quadrado “não importa os lados, não importa os ângulos”?

Enfim, pode parecer que o exemplo que eu estou usando, de uma forma geométrica, é bem grotesco, e é claro que ninguém concordaria com uma definição assim. Será? Para saber, vejamos o que foi comentado na seguinte imagem que foi publicada numa página de psicologia no facebook e que apresentava os dois conceitos de quadrado tal como apresentamos anteriormente aqui. Do lado esquerdo, o conceito funcional, e do lado direito o conceito inútil do quadrado que não é quadrado.

 encher linguiça psicologia

Resultado, veja alguns comentários:

comentários psicologia

Como vocês podem ver, eles adoram uma enrolação – acham que é bonito. Mas o que mais me chamou atenção é que eles se referem ao texto da direita como “filosofia”. Ou seja, eu, que escrevi um texto com critérios aleatórios sobre quadrados, fui considerado um filósofo (Uau! Que banalização da filosofia). Fico me perguntando quais as características que eles encontram no texto para considerá-lo como um discurso filosófico. Só porque acharam “bonitinho”, “poético”, então ‘tá valendo?! Simplesmente não há espaço para uma análise conceitual crítica.

Bem, esse foi só um exemplo. Mas lembre-se: há muitos outros quadrados na psicologia.

Por fim, gostaria de lembrar uma coisa: se apresentássemos para todas essas pessoas dos comentários aquele conjunto de figuras do nosso exemplo e pedíssemos para elas apontarem o quadrado, todas elam apontariam para a mesma figura: A QUE TEM QUATRO LADOS DE MESMO COMPRIMENTO E QUATRO ÂNGULOS RETOS.

7 pensamentos sobre “UM QUADRADO NA PSICOLOGIA

  1. Eu classificaria o texto como necessário, urgente… ou o melhor elogio que se pode obter: pragmático!!! Já divulguei entre meus colegas!

  2. Muito bom para um artigo breve de internet.

    Contudo, vejo como inapropriado dizer que para a ciência o quadrado é isso ou aquilo, o mais apropriado seria que para a Matemática, um dos campos da Ciência, o conceito de quadrado é assim e assado.

    Além dessa contextualização de um conceito, há suas consequências.

    Ex. Definir o que é quadrado e o que não é quadrado não gera hierarquia entre os conceitos na Matemática, não há qualquer consequência por si só. Diferente de um contexto social onde se uma pessoa for adjetivada de quadrada passa a ter valores sociais diferentes das não quadradas, podendo receber ou perder poder/potência social, sendo utilizado tal adjetivo para inserir ou excluir de determinados contextos sociais, exemplo banal, não ser inserida em um grupo de whatsapp por ser quadrada.

    Isso por que um Conceito nas diversas áreas das ciências sociais pode ser utilizado por qualquer pessoa a seu modo, com seus valores e compreensão própria de mundo, diferente da Matemática onde os conceitos são dogmáticos (ex. 1 é 1 e não 2, pois assim foi convencionado, dogmatizado).

    E algo comum nas relações sociais é a atribuição de valores a conceitos. o Documentário Olhos Azuis é excelente para se ver como que um conceito social criado arbitrariamente, como ter olhos azuis pode ser usado para desvalorizar ou valorizar, empoderar ou vitimizar pessoas.

    Dito isso, Parabéns pelo texto!

    • Verdade o que você disse Ed Thiago. Mas o assunto “quadrado” foi só uma analogia, já que seria fácil caracterizá-lo para nosso exemplo. Substitua-o por [talvez] qualquer conceito dentro da psicologia!

      Obrigado!

  3. Eu sempre duvidei da existência de um único texto decente sobre problemas e “problemas” da Psicologia na internet, escrito em língua portuguesa. O seu blog possui vários ótimos textos. Esse sobre o Quadradado é primoroso!

    Obrigado por provar que eu estava redondamente enganado.

    Abraço,

    Marcelo V. Silveira.

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