CORPOS DE COGUMELO: APRENDIZAGEM E MEMÓRIA EM INSETOS

Insetos podem aprender?

Um dia desses, eu ouvi alguém na TV falando que a diferença dos homens para os outros animais, é que estes só agem instintivamente, enquanto aqueles tem livre-arbítrio. Nem todo mundo é tão radical assim, mas ouvimos muita coisa parecida por aí, como quando dizem que os animais tem todo seu comportamento programado geneticamente, enquanto o homem aprende a se comportar ao longo de sua vida. Na academia, como nos cursos de biologia e psicologia, uma maneira mais formal de dizer isso é: “a capacidade de aprender é uma característica dos animais superiores, principalmente mamíferos e, dentro destes, os primatas; já os animais inferiores são puramente instintivos, seu comportamento é inato”. Nas três colocações, o instinto é identificado como motivo de todo comportamento destes animais, ao menos dos ditos inferiores, e pouca atenção tem sido dada a capacidade destes animais aprenderem, e assim adaptar seu comportamento de acordo com suas experiências em seu período de vida particular (ontogenético).

Ledo engano. Animais ditos inferiores, até mesmo invertebrados, podem aprender sim! A seguir apresento as principais estruturas neurais que têm sido identificadas como responsáveis pelos mecanismos de aprendizagem e memória em insetos.

(Ah, lembrando que essa divisão que fazemos entre animais superiores e inferiores é um vestígio da ideia de que o homem é evolutivamente superior aos outro animais, e que as formas mais próximas ao homem são por sua vez, superiores às outras etc. Esse pensamento é um erro, todos animais que existem hoje são tão evoluídos quanto o homem. E, se uso esses termos, é de forma didática, com intuito de facilitar a discussão. Podemos, talvez, dizer que alguns animais, incluindo o homem, são mais complexos que outros. Dessa forma, os insetos são incríveis. São considerados as formais mais complexas entre os invertebrados.)

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ALGUNS ASPECTOS DO BEHAVIORISMO RADICAL DE SKINNER EM “SOBRE O BEHAVIORISMO” (1974)

Atenção! Esse texto foi reeditado e republicado em http://www.psicoedu.com.br/2016/12/behaviorismo-educacao.html Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) é um dos principais (se não “o principal”) nomes da análise comportamental. A seguir apresento brevemente algumas características do pensamento de Skinner exposto em seu livro Sobre o Behaviorismo, de 1974.

Sobre behaviorismo, Skinner

Livro “Sobre o Behaviorismo”, de B. F. Skinner

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ÁGUA, COMPORTAMENTO E O MUNDO SENSORIAL DOS PEIXES

Uma questão filosófica antiga é: existe um mundo lá fora – uma realidade concreta – de onde recebemos passivamente as imagens (não só visuais) que compõe nossas visões de mundo, ou tudo que acreditamos ser do jeito que é, é na verdade fruto da nossa percepção e do nosso pensamento?

Parece uma indagação boba, aliás, é claro que existe uma realidade objetiva! Opa, não é bem assim, não há como ter certeza, porque só temos acesso “ao mundo” através de nossos órgãos de sentido. E se nossos sentidos estiverem nos enganando? E eles enganam como bem mostra as chamadas ilusões de ótica. O famoso filósofo René Descartes, no século XVII, dizia que os sentidos podem ser fonte de erro e enganação, e se não o são é graças a Deus! O neurologista Oliver Sacks tem publicado diversos relatos em seus livros de como o mundo que a gente constrói depende de nossas “construções mentais” – que por sua vez depende das estruturas neurais e da relação do sujeito com o ambiente…

Enfim, essa discussão a gente pode deixar pra outro dia. O que nos interessa aqui é que todos nós temos um “mundo”, seja ele uma realidade objetiva ou uma abstração construída mentalmente, pois é no mundo que agimos, que nos comportamos. E para nós, seres vivos, termos acesso/construir esse mundo, dependemos de nossos sentidos. Todo mundo lembra: tato, visão, olfato etc. Mas esse conjunto que todos conhecem não é regra. Diversas espécies lançam mão de diferentes mecanismos sensoriais para poder se comportar de forma mais adequada possível em relação às suas condições de vida.

Vejamos então, quais as estruturas que ajudam os animais aquáticos a lidar com seus mundos… Continuar lendo

O QUE O CÉREBRO DE UM ARTRÓPODE PODE NOS DIZER SOBRE SUA EVOLUÇÃO

O que podemos aprender com o cérebro de um único indivíduo? Se o cérebro for de um remípede, foco de um artigo elaborado por Fanenbruck et al.1, a resposta é algo novo sobre a filogenia dos artrópodes. Os remípedes, descobertos em 1979, são crustáceos encontrados no fundo das águas de cavernas costeiras2, 3. Até o momento, 12 espécies de remípedes são conhecidas: uma a partir de uma única caverna na Austrália ocidental e as outras do Caribe. O corpo de um remípede é dividido em uma cabeça e um tronco alongado com um máximo de 32 segmentos. Os segmentos do tronco apresentam apêndices que funcionam como remos, o que dá nome ao táxon (remípede: “pés de remo”). Os remípedes apresentam algumas adaptações para viver no escuro, como a ausência de olhos e de pigmentação, mas, como outros crustáceos, têm dois pares de antenas.

Remípede

A história evolutiva destes raros artrópodes é incerta. Em seu estudo sobre o cérebro de Godzilliognomus frondosus, Fanenbruck et al.1 propõe uma nova visão sobre a filogenia destes organismos. Seus estudos neuroanatômicos sugerem que os remípedes provavelmente fazem parte de um grande clado que inclui os malacostraca e o hexapodas, dois grupos de artrópodes bem conhecidos por seus cérebros complexos.

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